Cristo, a Fênix
As palavras de Jesus parecem não fazer sentido: “Nem um fio de cabelo da vossa cabeça perecerá” (Lucas 21:18). O comentário parece contradizer não apenas a experiência comum – todos nós passamos por muitas dificuldades – mas também as severas advertências de Jesus sobre guerras, terremotos e perseguições: “Sereis entregues até mesmo por pais, irmãos, parentes e amigos, e alguns de vós serão mortos” (21:16). O que ele quer dizer com “Nem um fio de cabelo da sua cabeça perecerá”?
As dificuldades, e a perseguição em particular, podem levar-nos a questionar a fidelidade de Deus. Nosso mundo desmorona; a escuridão nos atrai; o fim parece sobre nós – como podemos confiar nas palavras que Jesus fala?
Ambas as leituras do lecionário de 23 de novembro (Lucas 21:10–19 e Apocalipse 15:1–4) abordam as nossas dúvidas e visam reacender a nossa confiança. O mesmo acontece com o exemplo de São Clemente de Roma, que a Igreja hoje homenageia.
As afirmações paradoxais de Jesus – “Alguns de vocês serão mortos” e “Nem um fio de cabelo de sua cabeça perecerá” – podem nos confundir. Mas então o Livro do Apocalipse nos leva ao céu, onde vemos pessoas à beira de um Mar de Cristal, com harpas nas mãos. Essas pessoas são mártires; embora tenham sido condenados à morte, São João fala deles como vencedores, pessoas que venceram a besta e a sua imagem (Ap 15:2-3).
É um paradoxo – mártires e conquistadores – mas, em última análise, não é uma contradição, pois foi no martírio e através do seu martírio que eles conquistaram a besta.
A luta pode nos cansar; no nosso cansaço, começamos a questionar a bondade e a fidelidade de Deus. Tanto as palavras de Lucas como a nossa própria experiência fazem-nos desanimar, pois em ambas encontramos realidades – “eles matarão alguns de vós” – que parecem entrar em conflito com a bondade e a misericórdia de Jesus, que nos prometeu “Não um fio de cabelo da sua cabeça perecerá.”
São Clemente, em sua Primeira Epístola aos Coríntios, reconta a antiga história grega da fênix, uma ave mítica que, depois de viver quinhentos anos, morre, mas depois ressuscita das cinzas. Veja como Clemente conta a história:
Clemente conta essa história por volta do ano 96, pouco antes de sua morte. Ele nos lembra da aplicação cristã do antigo mito: “O Criador do universo”, diz ele, “provocará a ressurreição daqueles que O serviram piedosamente na segurança gerada pela fé honesta”.
Ao longo da sua carta, portanto, Clemente encoraja-nos a não resolver o problema com as nossas próprias mãos, mas a confiar-nos a um Deus fiel: “Que as nossas almas se apeguem Àquele que é fiel nas suas promessas e justo nos seus julgamentos”.
Clemente nos convence de que Jesus é confiável, de duas maneiras. Primeiro, ele deixa claro que as palavras de Jesus não são apenas palavras. “Eles matarão alguns de vocês”, disse Jesus. Ele poderia muito bem ter dito: “Eles matarão alguns de nós”. Jesus sofre a sua morte de mártir sabendo que, no entanto, nem um fio de cabelo da sua cabeça perecerá. Ele é a fênix que morreu e ressuscitou. Jesus é confiável porque ele fez o que disse; ele promulgou suas palavras; ele morreu e viveu novamente. Nem um fio de cabelo de sua cabeça pereceu.
Em segundo lugar, o próprio Clemente toca a harpa. Não o ouvimos, entre muitas outras vozes, lá perto do Mar de Cristal? Clemente também estava entre os que foram condenados à morte. Ele também venceu através do seu martírio. Diz a tradição que ele foi amarrado a uma âncora e jogado de um barco no Mar Negro, próximo à costa da Crimeia. O Papa Clemente confiou nas palavras de Jesus e por isso ouvimo-lo cantar a sua bela parte no coro dos mártires.
Nem as nossas dificuldades nem as palavras de Jesus contradizem a verdade: “Nem um fio de cabelo da vossa cabeça perecerá”. Não acontecerá, pois em nosso Senhor ressuscitado somos fênix, renascendo de nossas cinzas.
Hans Boersma é professor de Teologia Ascética, São Bento Servos de Cristo, no Nashotah House Theological Seminary.
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